Reguernica – Fevereiro de 2008

Reguernica – Fevereiro de 2008

Shopping Iguatemi Florianópolis SC
Fevereiro de 2008

É impossível passar incólume por Guernica. O quadro, não a cidade. A imagem dessa obra prima vem me ocupando a imaginação desde a infância. Eram visões parciais, fotos de revistas e jornais, um pedacinho numa enciclopédia, um detalhe reproduzido por algum cartunista, recortes. Me impressionavam os detalhes, o jeito como os personagens se torciam, o caótico, o assustador. Ignorando os aspectos políticos e históricos, talvez até artísticos, tive a companhia dessas figuras por quase toda a minha vida. Imagens que volta e meia retornavam do incosciente para me assombrar.

Quando comecei a pintar quadros, Picasso surgiu como referência principal, a partir de uma exposição a que assisti em São Paulo, já há mais de 10 anos. O impacto da visão daqueles “originais”, de outras fases, transformou minha percepção de arte para sempre. Mesmo assim, Guernica ficou distante, ainda que muitos a considerem a sua obra maior. Naquela época, estava obcecado e encantado com as cores, as técnicas, os amores desse mítico artista. Lá por 2000, se não me engano, numa rápida passada por Madri, fiz uma corrida até o museu Rainha Sofia, onde está o quadro: dei com o nariz na porta, pelo feriado de primeiro de maio.

Em 2007, de volta a Madri, consegui finalmente retornar à capital espanhola. Entrei no museu, percorri vi as imagens dos detalhes do quadro, os ensaios do autor que vão conduzindo o público até a obra. Grupinhos de crianças, excursões de senhorinhas japonesas, nada podia quebrar a concentração naquelas visões. Finalmente cheguei ao quadro imenso. Guernica entrou-me como um tremendo murro. E um intenso beijo. Ambos ao mesmo tempo. O deslumbramento acordou e pôs em movimento as figuras  que me trafegavam na mente soltas, líquidas. Ficaam piscando no claro-escuro do bombardeio com sua luz intermitente e assustadora. Gritaram em silêncio. Bocas abertas, olhos esbugalhados, mãos torcidas. Permaneceram dentro de mim, evocando aquele fatídico ataque á cidade, sobre o qual nunca havia pensado muito – a não ser por saber que era o tema do quadro que tanto admirava.

Chegou então o momento em que essas criaturas precisaram sair de mim. Lá mesmo, fechado no quarto do hotel, sob o efeito daquela visão, comecei a esboçar a minha leitura da obra. Entenda: longe, muito longe da minha intenção, totalmente impossível a pretensão, reproduzir o manifesto político do grande Picasso. Não seria sequer caricatura do espetacular painel. O que narro aqui é a história da minha relação com essa obra que há tanto me acompanha. Essa minha “Reguernica” é um retorno, contando as idas e vindas que essas imagens sempre fazem dentro de mim. E pintá-la foi como exorcisar o episódio real, o bombardeio de horror, para reter o impacto da arte do mestre.

Dedico esta exposição a pessoas muito especiais na minha vida, que dividiram comigo este dia inesquecível no Museu Rainha Sofia: Luisa, Carlos e Taís.

Luciano Martins


About The Author

admin

No Comments

Leave a Reply

ESTAMOS SEMPRE AQUI

ENTRE EM CONTATO

Endereço:

Rua Afonso Delambert Neto, 664, loja 02
Shopping Vila Paradiso - Lagoa da Conceição Cep: 88062-000
Florianópolis/ SC

Telefone:

+55 48 3232 0823

Atendimento:

Seg-Sex 09:30am - 18pm
Sab 13:30pm - 18pm